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A legitimidade de um Presidente

O Presidente de uma instituição como a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT), pode optar entre três modelos distintos e todos socialmente aceites. Pode liderar de acordo com as regras de governança corporativa existentes.  Estas regras assentam sobretudo na outorga de autoridade. Outros Presidentes assumem que apenas adquirem influência e credibilidade adicionais, ao demonstrar competência.  Os Presidentes de instituições públicas que alcançam o patamar da legitimidade nos cargos que exercem alcançam um mais alto nível de confiança e influência. Essa legitimidade só é possível de alcançar quando são demonstrados comportamentos específicos de modo consistente.

Neste artigo/depoimento tentarei expor o que aprendi ao longo da minha trajetória profissional e, particularmente, na minha relação pessoal e profissional com o Dr. Luís Pisco. Não será uma narrativa política ou romanceada, até porque não iria de acordo com o caráter deste dirigente. Tentarei com a humildade e a admiração que tenho por um líder muito particular, entre tantos outros que conheci, descrever a capacidade que ele sempre teve de nos ajudar a compreender o que era esta instituição e para onde a dirigia. Esta capacidade atraía os profissionais, na medida em que era explicado, de forma clara, como a organização precisava de se adaptar às mudanças que estavam a ocorrer, e qual o contributo de cada profissional para o sucesso da instituição. É sempre mais fácil seguir alguém, se soubermos para onde vamos, se o caminho escolhido fizer sentido e se o papel que cada um desempenha estiver definido, assim como o impacto desse desempenho no resultado final.

O dirigente máximo de uma instituição como a ARSLVT está consciente do poder que detém e do esforço que terá sempre de fazer para se manter imparcial. Frases como “Isso não é justo” chegavam, não raras vezes, através de mensagens ou de encontros e reuniões, vindos da parte de profissionais, das mais diferentes áreas de conhecimento. Consciente de que estes casos ou sentimentos minam a legitimidade de um Presidente e assumindo que era ele quem deveria dar o exemplo de comportamento para os diretores e/ou coordenadores de departamentos ou unidades, procurava por todos os meios receber as pessoas, dar indicações para os dirigentes visados, solicitava rápida resolução de diferendos e, sobretudo, solicitava a atenção de uma resposta rápida. Poderia não ser uma resposta resolutiva, mas seria uma resposta que indicasse a quem a pediu que o assunto era importante, estava a ser tratado por quem a poderia resolver e que isso ocorreria em tempo.  De outro modo correria o risco de ser injusto ao julgar os méritos dos testemunhos, ou mostrar favoritismo ao distribuir elogios e recompensas. Defendia ele que, caso não atuasse desta forma, as pessoas não se esforçariam ao máximo e adotariam comportamentos autoprotetores e políticos.

A integridade pessoal era encarada como uma medida da consistência entre o que o Presidente defendia e como ele se comportava. Sempre teve a noção de que, mais do que as suas palavras, os seus atos eram escrutinados, na medida em que os seus comportamentos iriam traduzir a correspondência entre o que dizia e o que fazia. Na realidade as pessoas podem não ouvir cada palavra que um Presidente diz, mas observam cada comportamento com muita atenção. Uma correspondência entre o que digo e o que faço, foi importante para a sua legitimação enquanto Presidente e essa, era a sua grande meta. Sentia que a sua legitimidade como Presidente iria aumentar sempre que se comprometia com os valores adotados, mas principalmente sempre que declarava publicamente aquilo em que acreditava, na medida em que já tinha feito iguais afirmações em privado, durante as suas aulas, ou noutros eventos públicos. Como Presidente não hesitava em fazer o recall de tudo aquilo em que acreditava e dos projetos que já tinha defendido noutras missões, custasse o que custasse. Mesmo que a decisão tomada não tivesse sido inteiramente dele, assumia a responsabilidade pelo desfecho, assim como eram dele as decisões tomadas, sem seu conhecimento, de muitos dirigentes intermédios. Tinha plena consciência que teria de o fazer, para preservar um bem maior: a sua legitimidade enquanto Presidente da ARSLVT.

Outro aspeto de relevo era a sua autenticidade. Era uma pessoa, para além do Presidente. Todos sabiam de onde vinha, pois gostava muito de dizer que era um “médico de família de província”. Mas também sabiam que era pessoa de causas e que tinha sido por acreditar nelas que ele tinha exercido determinados cargos, ao longo da vida. Fossem certos ou errados, assumiu esses projetos, desenvolveu-os e deixou-os à sociedade. Deixou-os em Portugal e no estrangeiro, assumiu os seus fracassos e as suas vitórias, que tantos querem fazer esquecer. Foi autêntico e aberto sobre os seus sucessos e fracassos, pontos fortes e fracos. Procurou ativamente opiniões e ideias dos outros. Evitou sempre a artificialidade, exalando uma sensação de “é assim que eu sou”. Foi assim que construiu uma imagem de acessibilidade (aceitava reuniões propostas por qualquer profissional, desde que tivesse disponibilidade de agenda), emocionando-se com os casos que lhe contavam, com os dramas pessoais que eram transmitidos à medida que se relacionava pessoalmente, inspirando outras pessoas a seguirem o seu exemplo.

Tornar-se Presidente, depois dos anos que passou como Vice-Presidente poderia ter sido considerado por outros, como um prémio devido pelos contributos que deu à Instituição. Mas, para o Dr. Luís Pisco, foi uma honra. Nunca ninguém o viu servir-se do cargo ou da Instituição, pelo contrário, os méritos foram dos outros e os fracassos foram os seus. Essa foi a sua conduta também noutras instâncias, e que teve impacto sobre a sua legitimidade enquanto Presidente.

Em suma, lidei com muitos dirigentes cuja liderança se baseava na autoridade, no poder formal e nos direitos de tomada de decisão pessoal. Lidei com alguns, cuja liderança se baseava na competência, concentrando-se no desempenho. Porém, apenas lidei com um, cuja liderança se baseava na legitimidade. Foi feita de comportamentos e ações que inspiravam confiança, respeito e comprometimento de todos. Embora todas as três formas de liderança possam ser eficazes em determinadas situações, a liderança baseada na legitimidade é a mais sustentável e eficaz, no longo prazo e foi a que o Dr. Luís Pisco exerceu nesta ARS e que faz dele um dirigente que admiro e que sempre fez a diferença.

Porque os líderes têm de permanecer humanos, humildes e acessíveis, para manter a sua legitimidade, no cargo que exercem.

 

Autor: Baltazar Monteiro

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