Inovação e cultura pautam lição jubilar de Mário Durval

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06 Março 2019

 

"O último despacho”. Este foi o nome de uma lição jubilar inovadora, carregada de manifestações culturais e de emoções, que Mário Durval, proferiu a 1 de março, no Fórum Lisboa. Na presença de Marta Temido, Ministra da Saúde, o Diretor do Departamento de Saúde Pública da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT) fez-nos viajar pelos mais de 40 anos que dedicou à Saúde Pública – da aldeia mineira de Aljustrel, às cidades dos afetos. No final foi aplaudido de pé.

 


A alma mater da lição jubilar da passada sexta-feira não foi uma habitual preleção. Foi um desfile de performances artísticas que tiveram início com a representação do personagem “José Pires”, a cargo do próprio Mário Durval, alentejano de Avis, que ao som de “O primeiro Dia” de Sérgio Godinho, surgiu no meio da plateia com o seu capote, chapéu e bengala.


Seguiu-se a apresentação do pintor Kira, que ao longo da tarde de 1 de março foi transpondo para a tela a sua interpretação de um dos poemas da autoria de Mário Durval.


Ativista social, inovador nato e dotado de um inabalável sentido cívico, o clínico de Avis não conseguiu exercer Medicina de forma isolada das comunidades onde a praticou. No início da carreira, as gentes das minas de Aljustrel reforçaram a sua visão de uma Saúde Pública de proximidade e impulsionaram a criação de consultas de Saúde Ocupacional nos centros de saúde, ainda na década de 70. Nesta altura, foi declamada poesia e ouviu-se o cante alentejano, Património Imaterial da Humanidade, a cargo do grupo “Os Cigarras”.


Nos anos 80, era necessário “colocar as pessoas no centro dos cuidados de Saúde Pública” e foi isso que Mário Durval e a sua equipa implementaram. No Fórum Lisboa assistiu-se a um vídeo com o título “Utente sofre” e escutou-se a melodia de “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, tocada pelo violino da Inês, sobrinha do médico jubilado.



Na década seguinte, na península de Setúbal, a reforma dos Cuidados de Saúde Primários exigiu novas formas de articulação entre os diversos grupos profissionais. Isso mesmo foi possível visionar em vários filmes caricaturais, dos quais destacamos o “Auto da Barca da Amora”, em estreita analogia com a obra de Gil Vicente. Na época, deram-se os primeiros passos no apoio domiciliário, em projetos de atividade física e de inclusão para pessoas com deficiência, recorrendo ao trabalho em rede com instituições da comunidade.


A paixão pela inovação manteve-se na vida de Mário Durval e já no século XXI arriscou transformar os afetos num dos pilares da Saúde, aplicando esse princípio no Plano Local de Saúde do Agrupamento de Centros de Saúde (ACES) Arco Ribeirinho. Foi nesta fase que a lição jubilar contou com a performance do Coro da Universidade Sénior do Seixal.

 



Promotor do projeto Cidades dos Afetos – uma iniciativa que pretende incluir o carinho no dia-a-dia das comunidades, assumindo a afetuosidade como mecanismo fundamental de desenvolvimento – Mário Durval foi descrito pelo Grupo de Dança Luz, da Associação NÓS (Associação de Pais e Técnicos para a Integração do Deficiente, da qual foi presidente), como um homem “meigo e expressivo, teimoso e trabalhador”. Em suma, “um ser livre”.

E foi com várias expressões artísticas, que foram do teatro à dança, passando pela música, pintura, canto, declamação e cinema, que Mário Durval comemorou os seus 70 anos, 45 dos quais dedicados à causa pública.


Na sessão, que contou com a presença de Marta Temido, o clínico jubilado expressou o seu desejo em continuar a exercer. Ao palco foram chamadas todas as pessoas que colaboraram na lição jubilar, ao som de "Pedra Filosofal" cantada por Manuel Freire. Colegas e amigos manifestaram o seu apreço no final da cerimónia, quando toda a plateia o aplaudiu ruidosa e prolongadamente, de pé.


Os afetos fecharam a sessão com “chave de ouro”, com a plateia a aplicar uma vigorosa “dose” de abraços.